Rui Abreu – Entrevista

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English version available here.

Rui Abreu é um designer gráfico português. Licenciou-se em Design Gráfico na FBAUP (Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto), no ano de 2003. Tem trabalhado como designer multimedia em diferentes agências de design e publicidade e desenvolve também a actividade de design tipográfico.

Rui fala-nos um pouco de ti?

Sou designer de comunicação e sou do Porto, onde me formei na Faculdade de Belas Artes. Neste momento, estou a trabalhar como designer multimédia numa agência de publicidade em Lisboa. Esta tem sido a minha actividade principal desde que me licenciei.

Quando é que te começaste a interessar pela tipografia e a criar fontes? Foi difícil começar?

Já andava na faculdade. Foi para mim, uma espécie de “epifania” quando descobri que haviam diferentes tipos de letra, para diferentes contextos ou significados. Numa altura em que ainda estava a descobrir o que era o design gráfico, foi importante na minha visão do design e de mim próprio enquanto designer. Acho que quando começamos a gostar das formas das letras vamos sendo seduzidos pela sua beleza e história e vamos tomando cada vez mais cuidado com a composição tipográfica, e dedicamos mais atenção ao detalhe e à adequação.
Independentememte disto, sempre gostei de desenhar e gosto de desenhar letras. De qualquer forma, depois da minha “epifania tipográfica” foi só uma questão de tempo até mergulhar no desenho das minhas próprias letras e, eventualmente, no desenho de uma fonte completa no fontographer.
Foi estimulante, não penso que tenha sido difícil começar. A parte difícil veio quando decidi criar uma família tipográfica. O trabalho parecia interminável.

Conta-nos um pouco do teu processo de trabalho quando desenhas uma fonte.

Depende da fonte. Normalmente, experimento umas ideias no papel antes de começar a trabalhar no computador.
A única vez que desenhei no papel uma fonte inteira, ou pelos menos todas as letras do alfabeto, fartei-me mal comecei a trabalhar no computador, e nunca a cheguei a terminar.
As minhas primeiras fontes, antes da Cifra e da Forma, foram feitas segundo uma estrutura modular pelo que uns esquiços à mão foram suficientes.
Normalmente, trabalho os contornos em freehand ou illustrator, depois copio-os para Font Lab e aí fixo os pontos e as curvas. Finalmente, vem o espaçamento e o “kerning”.

Reparamos que exploraste diversos estilos nas tuas tipografias. É uma preocupação tua? O que vem a seguir?

Sim é verdade. Comecei a trabalhar na minha primeira fonte a ser distribuída a seguir à faculdade e só foi lançada no início de 2006. Assim, as fontes que estão aí agora são ainda as minhas primeiras. Acho que estou, para já, a tentar fazer coisas diferentes e ir aprendendo com isso.
Neste último ano tenho estado a trabalhar em duas novas fontes: a Foral, uma slab serif monoline,
e a Catacumba de estilo didone, inspirada nas inscrições túmulares da
Igreja de São Francisco. É difícil dizer quando estarão disponíveis, uma vez que são projectos mais ambiciosos comparados com as fontes anteriores, e ainda necessitam de muito trabalho.

Também és um designer muito talentoso tanto de web como print. No futuro planeias dedicar-te apenas ao design tipográfico? É possível sobreviver vendendo apenas fontes?

Sim. Gostava mais de ser um designer tipográfico. Gosto muito de ser designer mas há dias em que acordo e apetecia-me sentar a moldar uns “beziers”, em vez de ir para o trabalho.
Mas parece-me difícil sobreviver só a vender fontes, especialmente se não formos nós próprios a distribui-las. Mas gostava de um dia poder fazer só tipografia (ou pelo menos tentar), sem patrões ou clientes idiotas e de vez em quando dedicar-me um belo projecto de design. Esta é a minha ambição idílica.

Achas que o design tipográfico é um acto de solidão?

Para mim tem sido, pois trabalho sozinho. Mas não penso que tenha de ser necessariamente assim. Quando se trabalha sozinho, às vezes, somos vítimas do aborrecimento e do desencorajamento, especialmente no design tipográfico. Seria mais motivante e menos cansativo trabalhar com mais uma ou duas pessoas, e não estou a aludir ao acaso de designers tipográficos célebres que têm funcionários para desenvolver toda uma fonte a partir de alguns caractéres. Um trabalho em colaboração deve ser bom para a partilha de ideias e distribuição de tarefas.
No entanto, também acredito que algumas tarefas exigem horas de trabalho solitário e concentração, como por exemplo, desenhar curvas bezier.

Como vês o cenário da tipografia em Portugal?

Acho que é muito bom. Gosto do trabalho dos designers portugueses e acho que é bem visto internacionalmente. Seria melhor, no entanto, se se sentisse mais um gosto português, o que será difícil de conquistar se nos mantivermos presos sempre aos mesmos exemplos. Mas à medida que aumenta o número de designers tipográficos, aumenta também a possibilidade de encontrar sinais portugueses nas fontes portuguesas, ou pelo menos, a possibilidade de conquistar mais decência tipográfica e auto-consciência.

Quem deveríamos entrevistar a seguir? E qual seria a tua pergunta?

A primeira pergunta que me vem à mente é se será possível encontrar quaisquer idiossincracias tipográficas no contexto histórico português (arquitectónico, artístico ou, seja qual for) ou no ambiente urbano. Talvez porque eu pense que seja possível, mas algumas ideias sobre isso seriam bem-vindas. É uma boa perguntar para qualquer designer português ou estudioso nesta matéria, mas talvez a fizesse ao Ricardo Santos ou ao Dino dos Santos.

Finalmente, dá-nos três das tuas fontes preferidas.

Jenson, Minion and Luc de Berry. humana, elegante, bela.Rui Abreu Site.
Fonts de Rui Abreu na T26 (Cifra, Forma, Salto Alto, Tirana).

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